Da Metamorfose ao Holocausto

É tão bom quando uma leitura é enriquecedora! E esse livro definitivamente foi enriquecedor. Aliás dois livros maravilhosos. Muitas vezes me pego pensando em que ponto o ser humano se perdeu.

Quando comecei a ler A Metamorfose de Kafka despretensiosamente, é um clássico e portanto necessário.


Provavelmente todos conhecem a história de Gregor Sansa que um belo dia acorda metamorfoseado em um inseto asqueroso. Kafka não define o inseto e a barata é muitas vezes o inseto mais asqueroso a passar primeiramente na cabeça de muita gente. Ou talvez tanta gente fala que é uma barata que nossa mente automaticamente imagine uma.

A família desse homem ao ver tal transformação fica em choque e é aí que o livro se desenvolve. A normalidade da família é rompida, o que era belo já não é mais belo e aquilo angustia a família. Como lidar com uma pessoa tão diferente deles?

A vida de Gregor a partir de então fica restrita a seu quarto, sua aparência grotesca e seus hábitos assustam as pessoas e o contato humano dele vem apenas sua irmã e uma velha empregada. Aos poucos sua família deixa de tratar Gregor como humano e a presença dele na casa da família se torna um incômodo. Nosso personagem é segregado.


Durante muito tempo fiquei pensando no final do livro, a princípio não gostei, mas depois entendi o que Kafka quis dizer sobre o conceito de beleza e normalidade aceitáveis na sociedade. O final foi coerente. 

Duas semanas depois da leitura de A Metamorfose comecei a ler Holocausto Brasileiro. Num nível nacional vi um país segregando pessoas a torto e a direito sem qualquer parâmetro. O Colônia era o quarto de Gregor Sansa. No entanto o quarto dos "loucos" do Colônia, "loucos" trazidos ao hospital dentro de trens de carga, os famosos "trens de doido" desembarcavam na estação do Hospital em Barbacena. Não foi por menos que Franco Basaglia em 79, quando visitou o lugar comparou o Colônia com campos de concentração nazistas. Esse campo de concentração matou mais de 60 mil pessoas.

Fundado em 1903 o Hospital Colônia em Barbacena foi inicialmente criado para o tratamento de tuberculosos que pela região montanhosa da cidade era considerada ideal. Pouco depois o hospital foi transformado em hospital psiquiátrico. Cerca de 70% dos internos do Colônia não tinham diagnóstico de doença mental. Com dezesseis pavilhões o hospital contava com 200 leitos, em 1961 o Colônia contava com cinco mil internos.


Pessoas eram levadas ao Colônia indiscriminadamente. Os "diagnósticos" atestavam tristeza para alguns, timidez para outros. Havia casos de menores abusadas e levadas ao Colônia grávidas. Um marido internou a esposa por briga de herança. Alguns internos sem documentação. Prostitutas, mendigos, alcoólatras e epilépticos. Uma garota que trabalhava na fazenda com o pai ousou pedir salário igual ao dos irmãos foi jogada no Colônia para o esquecimento. Todos que não se encaixavam e se tornavam incomodas na sociedade eram despejadas no hospital. E lá dentro o tratamento recebido não tinha qualquer humanidade. Na verdade chamar de tratamento é um eufemismo para a barbárie.

No inverno das serras mineiras, em plena madrugada os pacientes eram encaminhados ao pátio do Colônia para os funcionários retirarem a palha espalhada no chão do pavilhão para secarem. Palha usada como leito para os internos. Enquanto isso no pátio todos internos se juntavam em montes para aproveitar o calor humano, os que ficavam na beirada revezavam com os que se encontravam no meio. Muitos dos que ficavam no meio morriam sufocados. Outros morriam de frio. Os pacientes recebiam um uniforme ao chegarem, uniforme este de brim, inadequado para os dias frios. Esse mesmo uniforme era queimado aos poucos em fogueiras no pátio feita pelos internos para escapar do frio. Em consequência disso muitos andavam nus.



Assim como a hidroterapia, banhos de água com jatos de alta pressão  o tratamento de choque foi mais usado como forma de intimidação que "terapêutico". O pavilhão da hidroterapia é onde hoje abriga o Museu da Loucura.

Foram tantas mortes no Colônia que o Cemitério, construído nas mesmas terras do Hospital não comportavam mais. E foi assim que começou o tráfico de corpos que alimentou faculdades do Brasil durante um bom tempo. Quando não conseguiam vender ou enterrar os corpos eles eram diluídos em ácido no pátio para venda das ossadas. Tudo na frente dos internos.

Muitas coisas aconteceram naquele Hospital. É difícil imaginar como pessoas começaram a tratar pessoas da mesma forma, ou pior, que tratariam bichos. Mas o ser humano às vezes escapa de qualquer compreensão.



O tratamento dos internos foi desumano e com isso cada um que passou pelo Colônia, de funcionário, visitante a paciente perdeu também um pouco de humanidade. Holocausto Brasileiro é um livro necessário, Daniela Arbex aponta que é necessário contar e recontar o que aconteceu em Barbacena e em muitos outros manicômios do Brasil, porque é importante que não volte a acontecer. 

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